Carta autobiográfica de Luís de Camões

pesquisada e restaurada por Mara Candeias

 

Cidade Olisiponense, 9 de Junho de 1580

Encontro-me no leito da morte, enfraquecido pela doença e pela miséria. Não verei de novo a luz do dia seguinte, porque sei que irei morrer em breve. Por isso, determinei que havia de escrever uma pequena, mas importante, carta. Aqui, a minha vida será resumida.

Nasci em Lisboa, em 1524. A minha mãe chamava-se Ana de Sá e Macedo, e o meu pai, Simão Vaz de Camões. Fiz estudos literários e filosóficos em Coimbra. Aí, a minha paixão pela poesia nasceu e por ela se conhecem os meus amores, a minha vida boémia e arruaceira, as minhas alegrias e frustrações, a minha pobreza, razão pela qual estou morrendo, e também as minhas inquietações transcendentais.

Voltei para Lisboa em busca de emprego, mas enamorei-me pela infanta D. Maria. Este enamoramento foi a causa pela qual me impuseram  o exílio em Ceuta. Combati contra os mouros, mas, infelizmente, numa dessas batalhas, perdi um dos meus olhos. Este facto é referido na canção “Vinde cá, meu tão certo secretário”.

Cumprido o meu serviço militar, regressei a Lisboa, mas logo fui preso e encarcerado na cadeia do Tronco, em 1552, devido a uma rixa com um funcionário da Corte. Fui libertado em 1553, inteiramente perdoado pelo agredido e pelo Rei. Mas a vida lisboeta não me contentava, por isso, decidi partir para a Índia, à procura de aventura.

Aí, comecei a escrever o meu célebre livro, Os Lusíadas. Contudo, mais uma vez, na Índia não fui feliz, Goa decepcionou-me, como se pode ler no soneto “Cá nesta Babilónia donde mana”. Tomei parte em várias expedições militares e, numa delas, no Cabo Guardafui, escrevi uma das mais belas canções, "Junto desse seco, fero e estéril monte".

Mais tarde, fui exercer o cargo de provedor – mor de defuntos e ausentes- em Macau. Voltei a Goa, mas o meu barco naufragou na viagem para a foz do Rio Mecom. Salvei-me com muita sorte, nadando com um braço e erguendo, com o outro, o manuscrito da imortal epopeia. Mas esta viagem marcar-me-ia para sempre, porque nesta vi morrer a minha amada Dinameme. A esta fatídica morte dediquei os sonetos do ciclo Dinamene.

Sofri caluniosas acusações em Goa, dolorosas perseguições e duros trabalhos, vindo Diogo do Couto a encontrar-me assim em Moçambique, em 1568. Porém, continuei a escrever Os Lusíadas. Em 1569, regressei a Lisboa. Três anos mais tarde, em 1572, publiquei a primeira edição de Os Lusíadas, que li a sua Majestade, o Rei D. Sebastião.

Estes meus últimos anos foram amargurados pela doença e pela miséria, e assim foi a minha vida, cheia de aventura e desgraça, mas o certo é que foi um grande poeta, fiz o que sempre quis e não me arrependo de nada.

Luís Vaz de Camões